Belém Macabra: Histórias enterradas

Quem acompanha o PudimCast já deve saber que há tempos está nos planos produzir conteúdo focado na Amazônia e que algumas tentativas já foram feitas, mas o foco inicial era de bate-papos na Twitch. Hoje, no aniversário de Belém (406 anos), estreia a coluna BELÉM MACABRA aqui no blog, uma mistura de homenagem à cidade e vontade de compartilhar histórias que só existem por aqui.

De tempos em tempos teremos um texto novinho sobre alguma história macabra da cidade (com planos para desenrolar nossos tentáculos para outras regiões, fiquem atentos). Para a estreia, o tema é HISTÓRIAS ENTERRADAS.

Endereço macabro

A Av. Serzedelo Correa, entre Gentil Bittencourt e Conselheiro Furtado, abriga nada mais, nada menos que TRÊS cemitérios. O perímetro é movimentado durante o dia, cheio de pontos comerciais e tudo, mas durante a noite é calmo e silencioso, perfeito para a proliferação de lendas e causos.

Boa parte do entorno do maior cemitério, o Soledade, está ocupado, contando até mesmo uma feira. Dizem que as mangas vendidas lá são mais gostosas porque vêm do cemitério. 😮

Créditos: Google Maps

E aí, tens coragem?

Cemitério da Soledade

O Cemitério da Soledade foi inaugurado em 1850, durante uma epidemia de febre amarela que assolava a região, e está localizado numa zona central de Belém, no entanto, na época de sua inauguração, a área não era tão fortemente povoada. O cemitério ficou ativo de 1850 a 1880 e os únicos a serem enterrados eram os ricos, a quem o cemitério era o “destino final“.

Inspirado nos modelos europeus, o cemitério foi inaugurado na época em que os enterros nas igrejas começaram a ser proibidos e os ritos funerários passavam por transformações. É o início da “morte burguesa“, onde os ricos choravam seu mortos e mandavam erguer mausoléus para homenageá-los.

“Essa necrópole encravada no coração da cidade já não é a fúnebre estância, onde se vão putrefazer os despojos humanos. Crescendo diariamente a população de Belém e sendo a mortandade mais ou menos relativa a esse aumento de habitantes, já de muitos anos o Cemitério da Soledade foi declarado interdito, convertendo-se desta sorte num pitoresco e sombrio jardim, onde a memória dos mortos se acha perpetuada nos túmulos solitários”.
(Cemitério da Soledade, c. 1890 / Biblioteca Nacional)

Com as mortes avançando pela cidade (estima-se que cerca de 1/3 da população foi dizimada na época – cerca de 25.000 pessoas), o cemitério se tornou pequeno e um novo precisou ser construído (Cemitério de Santa Izabel), ainda mais distante do centro urbano. O Soledade se tornou um lugar silencioso e quase sistematicamente abandonado pelo poder público, mas que crescia em número de visitas e de histórias que começavam a correr na boca da população local.

Na época do seu fechamento, Belém vivia a expansão gerada pelo Ciclo da Borracha, o que fez com que os entornos do Soledade começassem a ser ocupados e tornou o bairro (atualmente chamado de Batista Campos) elemento central da urbanização. Na década de 1960, 80 anos após o seu fechamento para enterros, o lote passou a ser alvo de especulação imobiliária e quase se tornou um conjunto habitacional. Foi graças à cooperação de intelectuais e outras personalidades da cidade que o cemitério foi tombado e passou a ser patrimônio público.

No meio de um dos bairros mais caros da cidade existe um cemitério fechado há 170 anos mas que atrai visitantes até hoje com histórias de milagres e santos populares. Macabro o suficiente para vocês?

“O que mantém o Cemitério da Soledade como espaço ativo e muito frequentado em Belém é o culto das almas, realizado todas as segundas-feiras. São os muitos devotos do Menino Zezinho, do Menino Cícero, da Menina Januária, dos Gêmeos, da Preta Domingas e da Escrava Anastácia que encontraram no espaço uma forma tipicamente brasileira de praticar o catolicismo.”
(Anderson Araújo – Jornal O Liberal, 13/11/11)

Outro ponto interessante a ser destacado sobre a história do Soledade é que existe uma “conspiração” sobre o tamanho do cemitério: dizem que ele encolheu! Mas em estudo feito com as plantas de várias épocas (incluindo uma tese de mestrado acessível aqui), é possível notar que as pequenas alterações na área destinada ao cemitério, principalmente as mais periféricas, apenas indicam que foram abertas vias onde, provavelmente, não haviam corpos enterrados. Não existe nada que indique que a expansão da cidade “engoliu” um pedaço considerável do cemitério.

A Criança milagreira

Um dos túmulos mais visitados do Soledade é o que possui uma estátua de criança nua que segura um pergaminho com o seu nome e data de sua morte. Há décadas a criança enterrada ganhou a fama de milagreira, atraindo atenção, curiosidade e, claro devotos.

Elevado à categoria de “Santo Popular”, fieis atribuem dádivas ao menino, apelidado de Zezinho, e costumam deixar “presentes” em seu túmulo, como doces e bombons, em retribuição às graças alcançadas.

“O Menino Zezinho trouxe a minha neta de volta!” – Relato adaptado do site Belém de Arrepiar:

Zuleide costumava visitar o cemitério da Soledade pelo menos uma vez por mês. Habituada a acender suas velas durante as visitas, ela sempre via brinquedos, velas, roupas e outras coisas deixadas num túmulo próximo da entrada por devotos de uma criança que faleceu no final do século 19. Essa criança é conhecida por muitos que vão ao Soledade como “menino Zezinho”. Zuleide já tinha ouvido falar de seus milagres, mas nunca pensou em acender velas em seu túmulo.

Um dia, perto das 10h da manhã, sua neta desapareceu no Ver-o-Peso e, após mais de 5 horas de buscas sem notícia alguma, Zuleide decidiu ir até o Cemitério da Soledade pedir que as almas a ajudassem a encontrar sua neta. Com o cemitério quase vazio, ela acendeu suas velas e, antes de fazer qualquer pedido, ouviu uma voz infantil chamar seu nome. Olhando para trás, ela viu que um menino franzino, que usava uma roupa de características bastante antigas, a chamara. Ele estava parado justamente perto da sepultura do menino Zezinho.

Assustada, Zuleide encarou e teve certeza de que ele não era de nosso mundo. Sorrindo, a criança abriu a mão direita, fazendo um sinal como se a estivesse pedindo para aguardar. Ele mostrou cada um de seus cindo dedos da mesma mão e, logo em seguida, desapareceu. Extremamente confusa e assustada, ela saiu do cemitério com uma reconfortante esperança em seu coração.

Ao voltar para casa, Zuleide soube que todos continuavam na busca aflitiva por notícias da menina.

Na mesma tarde, exatamente às 17h (ou seja, às cinco da tarde), Zuleide recebeu um telefonema: sua neta havia sido encontrada. Fora achada por uma senhora que morava na Cidade Velha e que, juntamente com o esposo, a levou para a delegacia.

Muito feliz, Zuleide abraçava seus filhos enquanto gritava: “Graças a Deus, o menino Zezinho trouxe minha neta de volta!”

Cemitério dos Ingleses

Em 1810, graças a um tratado, os portos começam a ser abertos para as “nações amigas” de Portugal. Em 1815 foi construído o Cemitério dos Ingleses.

No mesmo terreno foi construída a Igreja Anglicana e, cerca de 150 anos depois, uma escola (que fechou em 1998/1999).

Foto de 2016 (Créditos: Ex-alunos do colégio John F. Kennedy).

Mas o que tem de macabro? Além do fato de ser uma parte esquecida da história, durante o funcionamento da escola era comum que os alunos tivessem acesso e brincassem entre as lápides.

Print retirado do Facebook

Isso mesmo, os alunos do colégio se divertiam pulando entre as lápides. Nessa época espalharam-se boatos de que pisar nas lápides daria azar ou atrairia morte.

Necrópole Israelita

A poucos metros de distância do Cemitério dos Ingleses, em um lote simples, quase esquecido, fadado a quase virar anexo do terreno vizinho, foi construída a Necrópole Israelita, um cemitério judaico que funcionou de 1842 a 1915.

A necrópole abriga apenas 28 túmulos, sendo a maior parte deles impossível de identificar. A conservação e manutenção fica a cargo da comunidade israelita.

Não são conhecidas histórias macabras que envolvam o local mas, durante um dos meus períodos na UFPA, fiz amizade com alguns alunos de Artes Visuais e ouvi de um deles que, poucos tempo antes, um aluno do mesmo curso estava fazendo um trabalho sobre os cemitérios de Belém e, em uma das fotos do trabalho, era possível ver um vulto saindo de um dos túmulos. Infelizmente não cheguei a conhecer o aluno, mas gostaria de ter conversado com ele.

Ao passear por Belém, não esqueça de visitar esses lugares… 😱


FONTES CONSULTADAS:

– O fim dos enterramentos na igreja e a construção do cemitério: mudanças na cultura funerária em Maragogipe-Ba – PDF online;
– Fragmentos de Belém – Tumblr;
– Tese de Mestrado – Santa Izabel e Soledade;
– Tese de Mestrado – As Duas Faces da Morte;
– Salomão Mendes – Memória. Soledad.;
– Belém de Arrepiar – Menino Zezinho.

Cintia Pudim

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