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As frutas podres das redes sociais

O brain rot saiu do seu nicho inicial, contaminou as outras redes e apodreceu o cérebro até dos adultos. As “novelas de frutas” se tornaram o fenômeno da semana e tem até marca grande surfando no sucesso. Mas vale a pena?

Moranguete, Abacatudo e Bananildo. Talvez você já tenha ouvido falar desses personagens ou, até mesmo, assistido a um dos dramas (adultos) vividos por eles. Se não assistiu, então o seu algoritmo ainda não foi contaminado pelo último fenômeno das redes: as novelas de frutas! Com forte presença no TikTok e milhões de visualizações por episódio, esses dramas de poucos segundos estão começando a escapar para as outras redes. A estética infantil pode até enganar à primeira vista, mas a maior parte dessas novelas traz à tona temas como machismo, gordofobia, misoginia, traições e muito mais. Como foi que tudo isso começou e o que explica esse sucesso meteórico?

O mundinho reality show

Reality shows sempre fizeram sucesso por aqui, não é à toa que Big Brother Brasil já está na sua 26ª edição. Mas o BBB, embora seja um dos mais conhecidos, é apenas a pontinha do iceberg do entretenimento. Existem diversos outros formatos, sendo um dos principais os que envolvem relacionamentos românticos, como Love Island, 30 dias para Casar e Casamento às Cegas.

Love Island segue uma das fórmulas mais populares de reality para o público jovem. Segundo o site Terra:

Imagine um lugar paradisíaco, um grupo de solteiros super atraentes (e prontos para achar um novo love), desafios inusitados e muito, mas muito drama. Isso mesmo, estamos falando de “Love Island”, o reality show que vem conquistando o TikTok ao redor do mundo — incluindo o Brasil.

>>> LEIA MAIS: LOVE ISLAND – O REALITY AMERICANO QUE ESTÁ CONQUISTANDO AS REDES (2024) <<<

A estética de jovens sarados e cheios de tesão, em algum momento, se encontrou com a estética das frutas falantes e criou um dos realities mais populares do momento (que só existe nas redes sociais, por enquanto):

Fruit Love Island

Isso mesmo, o Love Island ganhou uma versão não oficial com frutinhas de IA publicada no TikTok pela conta AI Cinema em Março de 2026. Em poucos dias, o perfil “ai.cinema021” quebrou um recorde na plataforma por ter alcançado o crescimento mais rápido da história, acumulando milhões de seguidores em poucos dias.

Mas tudo que é doce, um dia acaba: Duas semanas após o seu lançamento, o criador do perfil decidiu encerrar a série e, alguns sites, divulgaram que ele se tornou alvo de denúncias em massa e perdeu sua monetização. Mas isso não foi o suficiente para deixar a trend morrer: A série de IA, que já fazia sucesso no Brasil, foi adaptada para a realidade local por diversos outros perfis e ganhou ares novelescos: caos, conflito & confusão.

As novelas de frutas

O Brasil, um dos maiores produtores de novelas do mundo, rapidamente abraçou o formato e passou a produzir seus próprios dramas frutescos. Personagens como Moranguete, Abacatudo e Bananildo vivem dramalhões que costumam envolver traições, divórcios e, por algum motivo, muitos treinos na academia.

Só que esses temas, embora sejam +18, estão à solta nas redes sendo consumidos por usuários de todas as idades. Educadores e psicólogos já se manifestaram sobre os vídeos, que estão sendo empurrados goela abaixo pelos algoritmos das redes. E aqui, entra um ponto muito importante: Não é que a rede social “priorize” conteúdos gerados por IA, mas ela prioriza conteúdos com engajamento. Embora muitos dos comentários que apareçam nas postagens sejam de piadas, o algoritmo entende que aquilo ali é importante e acaba exibindo para cada vez mais pessoas. E isso, claro, faz com que as marcas acabem entrando na trend (e deixando ela ainda pior).

O jogo das marcas

Se faz sucesso, em algum momento alguma marca vai querer utilizar, basta ver como BK, iFood e Duolingo se comportam nas redes. E não demorou para que as duas primeiras fizessem as suas próprias versões.

>>> LEIA MAIS: MARCAS ENTRAM NA TREND DAS NOVELAS DE FRUTAS <<<

É tipo chamar a Andressa Urach pra protagonizar alguma propaganda.

Com a entrada das marcas, o que já era ruim, ficou pior. Os enredos lançados, embora autorais, não fogem muito do que já está sendo produzido por centenas de outros perfis por aí, com o vídeo do iFood, inclusive, trazendo o tema da traição.

Essas estratégias, de certa forma, acabam validando os conteúdos que estão sendo criados e consumidos vorazmente, tornando ainda mais difícil de fugir de todo esse AI slop (conteúdo de baixa qualidade produzido em escala por IA).

>>> LEIA MAIS: AI SLOP TOMOU CONTA DAS REDES <<<

As novelas de frutos são:

  • Personagens criados com IA;
  • Vivendo roteiros escritos com IA;
  • Usando vozes de IA;
  • Vendendo cursos de IA.

Ah, sim. E existem os CURSOS que prometem uma grana extra para quem produz essas novelinhas. Ou seja, o sistema se retroalimenta o tempo todo.

Um anúncio feito com IA para vender um curso que ensina a usar IA para criar conteúdo de IA.

O puro suco do brain rot e a fadiga visual

No último episódio do PudimCast®, abordamos as consequências do brain rot, como:

…o consumo compulsivo de vídeos curtos está associado a mudanças neurológicas importantes. Entre elas, a redução da sensibilidade às consequências reais, o que favorece comportamentos impulsivos e decisões menos refletidas.

Esses conteúdos, que não têm profundidade conceitual e são feitos para serem consumidos rapidamente, estão mudando nosso comportamento. Além disso, eles acabam causando uma fadiga visual por serem sempre tão parecidos. O cérebro humano não está acostumado a isso.

E daqui pra frente?

Como toda “trend de internet”, essa deve acabar em breve, mas já causou muitos estragos. Mesmo assim, ainda é cedo para dizer se as frutas conseguirão se manter relevantes após o hype, como aconteceu com Tung Tung Tung Sahur e Ballerina Cappuccina que, inclusive viraram skins de Fortnite.

Em momentos assim, o melhor que podemos fazer é continuar consumindo conteúdos feitos por humanos e para humanos, não é?!

OUÇA O PUDIMCAST®!

Cintia Pudim

Blogueira | Podcaster | Cafeinólatra | Social Media