O Algoritmo está Moldando nossas Vidas.

No fim de semana eu participei da Campus Party falando sobre feed de podcast, feed de redes sociais, algoritmos e isso tudo toca em questões que já estão na minha cabeça há tempos mas que raramente externalizo.

Sou publicitária e já tenho 10 anos de atuação em redes sociais; acabei entrando nessa área no começo da faculdade e não consegui sair mais. Era só pra passar uma chuva e, olha lá, bodas de estanho (ou zinco). Mas às vezes acho que esse nosso relacionamento é bastante abusivo.

Pra quem por acaso perdeu a palestra ou ainda não ouviu o compacto que saiu pelo PudimCast (ouça agora!) e realmente não entende o funcionamento dos algoritmos, vou dar uma explicação rápida.

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➡ No começo das redes sociais (lá atrás, quando eu comecei a trabalhar com elas), elas funcionavam em ordem cronológica, ou seja, tudo o que era postado aparecia instantaneamente na timeline dos seguidores. O problema disso é que: se a pessoa não estava vendo na hora, só veria se fosse atrás do conteúdo depois (que nem stalker, né?). Só que as equipes de desenvolvimento dessas redes notaram que poderiam fazer diferente e começar a “destacar” certos conteúdos. Mas como isso funcionaria? Simples: quanto mais interações com aquele conteúdo, melhor “rankeado” ele ficaria dentro da rede. Mas não era só isso: cada pessoa teria um “ranking” único para os conteúdos, ou seja, o Facebook/Twitter/Instagram passariam a destacar os conteúdos de acordo com as interações individuais com eles (curtidas, comentários, compartilhamento, etc). A lógica é bem simples e parece benéfica, já que teríamos uma espécie de “filtro” para recebermos apenas conteúdos relevantes.

Aí vieram os “posts patrocinados” e o negócio já começou a desandar.

➡ Esses “patrocínios” (ou anúncios) acabavam sendo direcionados de acordo com os interesses do público, ou seja, mesmo que eu não seguisse/curtisse determinada página/usuário, o Facebook/Twitter/Instagram exibiria aquele conteúdo para mim baseado nos meus “interesses”.

Ok, vamos pensar que, pelo lado da Publicidade, isso é um avanço incrível já que nos dá ferramentas bastante apuradas para acertar nosso público.

Mas pelo lado do usuário acaba sendo UM SACO.

➡ Eu tenho interesse em marketing digital, a área que escolhi trabalhar, mas de repente minhas redes (Facebook e Instagram) ficaram INSUPORTÁVEIS de anúncios de “gurus do marketing digital” com conteúdos/fórmulas para conquistar mais público, seduzir clientes, criar calendários de conteúdos, etc.

➡ ➡ ➡ INSUPORTÁVEIS! ⬅ ⬅ ⬅

Bastou eu clicar UMA VEZ numa dessas ofertas (só pra ver a besteira que o tal guru tava inventando) e, pronto, não tem uma única vez que eu não abra uma dessas redes que não pulem 35 milhões de anúncios sobre o tema na minha cara.

E isso nem é tudo. O que era para ser uma “rede social” acabou de tornando uma rede de anúncios.

➡ Ok, eu sei que as redes precisam se sustentar e gerar lucro$, mas assim já é demais, não é? É cansativo ter que ficar separando as coisas que quero ler no meio de tanto anúncio insuportável.

E os algoritmos não funcionam apenas para as marcas, funcionam para as pessoas também: não importa o número de amigos que tenhamos no Facebook, ele só irá mostrar atualizações de uma pequena parcela deles.

➡ E é aí que a paranóia e ansiedade atacam.

Imagina gostar de alguém e, sei lá, essa pessoa ter 2 mil seguidores. As atualizações dela aparecem pra você (porque você vai atrás dos conteúdos criados por essa pessoa) mas essa pessoa NUNCA interage com o seu perfil. Nesse caso, existem duas opções:

1⃣ Ou o seu perfil NÃO aparece para ela (culpa dos algoritmos);

2⃣ Ou essa pessoa NÃO TEM interesse nas coisas que você posta.

Confesso que acho as duas opções extremamente danosas.

Mas no dia-a-dia, quem é que pensa nesse tipo de coisa?

Inclusive, vou contar um causo rápido.

➡ Uns meses atrás eu resolvi testar como o algoritmo se comportaria se eu começasse a seguir uma pessoa que conheci pessoalmente mas que não tínhamos ninguém em comum nas redes sociais.

Como a pessoa me seguiu de volta logo em seguida, de cara eu já sabia que minhas últimas atualizações apareceriam pra ela.

Mas e depois, como fazer pra eu não me perder no mar de seguidores?
Eu comecei a interagir com o perfil: cada foto que a pessoa postava (não importava qual fosse), eu ia lá e curtia. Também comecei a reagir aos Stories.

Curiosa, a pessoa começou a ver meu perfil também (a essa altura do campeonato eu já parecia uma stalker louca, mas tudo em nome do conhecimento técnico).

E aí EU fiquei em destaque no perfil dela.

Cada coisinha que eu postava, em poucos minutos já tinha lá o like ou reação dela.

E eu fui deixando de interagir com o perfil (tomou um ghosting em nome da minha curiosidade, desculpa), mas notei que a pessoa continuava a dar curtidas e reagir aos meus conteúdos por umas boas semanas. Chegou até mesmo ao caso de curtir uma foto minha depois de dois dias postada (era uma foto matadora, que teve chuva de likes, então acabou se destacando no feed mesmo depois do algoritmo ir me cortando aos poucos da vida daquela pessoa).

Confesso que foi um pouco dolorido (apesar de ser tudo um teste e a pessoa estar ciente porque contei logo no início de tudo). Quando deixei de interagir com o perfil, a pessoa “deixou de lembrar” que eu existo e, aos poucos, eu fui sumindo da vida dela (nesse caso, do feed).

➡ Mesmo trabalhando nessa área, confesso que acho bastante complicado deixar a nossa vida ser regida por algoritmos. Eu não tenho como lutar contra essas coisas, pelo contrário, eu até faço parte disso.

Mas tenho consciência (pelo menos um pouco) do que acontece por trás dos panos.

Ou melhor, dos algoritmos.

Cintia Pudim

Podcaster | Gateira | Consultora de Podcasts | Cafeinólatra | Social Media | 8 ou 80 #PudimCast | #PudimAmarelo | #PudimCasa