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PudimCast #31 – O Lado Físico da Vida Digital

Muita gente acha que o digital é imaterial, que a nuvem fica flutuando por aí, mas os bits ocupam um espaço físico enorme e afetam a população. Gigantes da tecnologia como Google e Microsoft escolhem estrategicamente regiões com água e energia baratas, leis ambientais fracas e pouca fiscalização para instalarem seus data centers, estruturas que guardam todas essas informações.

No 3º episódio do arco “Realidade Distorcida”, Cintia PudimVinicius Seixas e Brendo Marinho discutem como esses data centers têm afetado a população no entorno deles, por que o Brasil virou a bola da vez para os Data Centers de IA e se estamos caminhando para a soberania ou para um novo colonialismo digital.

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2. Data centers

Data centers podem ser definidos como diversas CPUs, conectadas uma a uma e funcionando em cadeia. É como ter um computador monstruoso que precisa abrigar, basicamente, a internet dentro dele.

Esses data centers são conhecidos por alterarem, de forma drástica, a vida das pessoas que moram perto dessas estruturas. O que pouca gente imagina é que o impacto vai muito além de um simples galpão na vizinhança: estamos falando de consequências reais para a saúde física e mental, além de sérios danos ao meio ambiente local.

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O primeiro grande vilão é a poluição sonora. Não é só um barulho que acontece de vez em quando, mas sim algo que está sendo chamado de “zumbido de data center” — um ruído grave, contínuo e de baixa frequência, gerado 24 horas por dia por gigantescos sistemas de refrigeração e ventiladores. Relatórios de organizações como o Sierra Club apontam que o som perto dessas estruturas pode alcançar os 90 decibéis. Em locais com alta concentração de data centers, como no estado da Virgínia (EUA), vizinhos relatam que esse zumbido ininterrupto penetra nas paredes, causando distúrbios crônicos de sono, dores de cabeça constantes, vertigem e até aumento da pressão arterial, além de serem chatos pra cacete. Esse é um incômodo similar ao das turbinas eólicas, que virou manchete alguns anos atrás quando foram instaladas no Brasil, perto de locais habitados.

Outro ponto de forte impacto é a poluição luminosa. Por questões de segurança e operação contínua, os pátios e arredores dessas instalações permanecem intensamente iluminados durante toda a madrugada. Como destaca a National Wildlife Federation, essa “noite que nunca chega” invade as janelas das casas vizinhas, destruindo o relógio biológico natural — o chamado ciclo circadiano —, o que gera um profundo mal-estar crônico nos moradores, além de desorientar a fauna local.

E, por fim, a questão da poluição do ar e da água. O termo “espalhar poluição” não é força de expressão. Para garantir que os servidores jamais desliguem, os data centers dependem de dezenas de geradores gigantescos movidos a diesel para emergências. De acordo com análises do World Resources Institute (WRI), a queima contínua e os testes desses geradores liberam materiais sólidos e gases tóxicos diretamente na comunidade, agravando casos de asma e doenças respiratórias. Isso sem contar a água: um único complexo de servidores pode consumir até 18 milhões de litros de água potável por dia só para não superaquecer, colocando em risco o abastecimento de cidades inteiras.

Aqui, é preciso fazer um parêntesis entre os tipos de data center: os de nuvem e os de treinamento de IA:

  • Os data centers de armazenamento em nuvem são responsáveis por armazenar dados, são estruturas gigantescas que armazenam bits das nossas vidas digitais, como as fotos que tiramos e nossos emails;
  • Já os data centers de treinamento de IA, como o próprio nome diz, são responsáveis por treinar os modelos de linguagem, utilizando tecnologia de ponta com chips modernos que acabam esquentando mais, por isso, exigem um sistema de resfriamento mais robusto que os data centers de nuvem.

Nesse episódio, focamos mais nos data centers de treinamento de IA.

Em um estudo de 2025, o IDEC investigou casos reais no Chile, México, Uruguai e Brasil, expondo um padrão alarmante para a instalação desses data centers: comunidades ficando sem água, contas de luz mais caras e projetos aprovados sem consulta à população. Essa dinâmica tem nome: colonialismo digital, mas vamos falar disso um pouco mais pra frente. Antes, vamos tentar entender o tamanho desse problema.

>>> LEIA MAIS: ESTUDO DO IDEC SOBRE DATA CENTERS <<<

No fim de 2023, quando a IA já estava ganhando força e ficando cada vez mais acessível, já existiam cerca de 12 mil data centers no mundo e esse número aumentou exponencialmente. No Brasil já foram instalados alguns data centers, sendo que o maior da América Latina fica em Vinhedo (SP), com quase 50 mil m².

Mas é claro que, para instalar essas estruturas monumentais, nos vendem a ideia de que aquilo ali vai gerar milhares de empregos, desenvolver a região e atrair talentos, mas o boom de data centers de IA, na verdade, é um “fracasso” na criação de empregos; a média é de apenas 30 a 100 funcionários permanentes, mesmo que sejam empregadas milhares de pessoas durante as obras. Como o trabalho é quase todo automatizado, as equipes são enxutas. Ou seja, os empregos que são criados de verdade são apenas temporários e para serviços pesados de construção civil. Na maioria das vezes, os profissionais que trabalham diretamente nos data centers, nem são da região. São importados de outros locais e até mesmo de outros países.

3. Inteligência “Sedenta”: O Custo de Cada Prompt

A IA generativa não é apenas cara; ela é um ralo de recursos naturais. Com o uso constante desses equipamentos, é necessário que tanto o sistema elétrico quanto o de resfriamento funcionem de forma ininterrupta, fazendo com que muitos desses locais tenham seus próprios geradores e subestações de energia.

  • Fome de Energia: Uma única consulta ao ChatGPT consome quase dez vezes mais energia (2,9 Wh) do que uma busca comum no Google (0,3 Wh) (Goldman Sachs/Revista Fapesp).

  • Água por Pergunta: Uma conversa com 20 a 30 perguntas para o ChatGPT consome cerca de 500 ml de água para resfriamento (Revista Fapesp). O treinamento do GPT-3 sozinho pode ter consumido 700 mil litros de água potável (Revista Fapesp). Mesmo quando o sistema de resfriamento reutiliza a água, em determinando ponto ela estará tão cheia de sais e minerais que a única saída é descartá-la, tornando imprópria para qualquer tipo de uso. Em 2025, a estimativa era que, apenas o ChatGPT, possuía 400 milhões de usuários semanais.

  • Emissões Reais: Há evidências de que as emissões reais das Big Techs podem ser até 662% maiores do que o declarado oficialmente em seus relatórios (The Guardian/Idec), mostrando que, aquilo ali que parece tão inocente, que tá no teu bolso, está contaminando — e muito — o planeta.

4. Brasil no Alvo: Entre o Progresso e o Retrocesso

Recentemente, o país passou a atrair investimentos bilionários para a construção de data centers, com a promessa de “soberania digital”. Soberania digital refere-se ao controle sobre ativos digitais, incluindo dados, software, hardware e infraestrutura. Isso significa que, trazendo esses data centers para cá, o país seria, por assim dizer, donos de tudo, mas a verdade tende a ser bem diferente disso.

“AI City” de Eldorado do Sul (RS)
  • A “AI City” de Eldorado do Sul (RS): O projeto da Scala Data Centers prevê consumir 4,75 GW de energia — mais do que todo o estado do Rio de Janeiro consome ou do que a usina de Jirau gera (Idec). Eldorado do Sul, para quem não sabe, foi uma das cidades mais castigadas pela enchente de 2024 que assolou o Rio Grande Sul, e mais de 80% das casas ficaram debaixo d’água, deixando cerca de 30 mil pessoas desalojadas. Mas é claro que o futuro data center não será afetado por esse tipo de intempérie, pois o terreno comprado, com área total de 3,5 milhões de metros quadrados, equivalente a 540 campos de futebol, está localizado numa parte mais alta da cidade. É estimado que esse data center tenha capacidade de consumir a energia equivalente a todo o estado do Rio de Janeiro.

  • TikTok no Ceará: Um projeto baseado em Caucaia (CE), com custo inicial de R$ 55 bilhões, foi licenciado como “construção civil” na mesma categoria de parques de vaquejada, ignorando o impacto ambiental. Esse data center da ByteDance, a empresa chinesa por trás do TikTok e Capcut, terá capacidade inicial de 200 MW de processamento, tornando-se o maior data center (ou seja, de um único cliente) do Brasil. Ele também será o primeiro voltado para a exportação – os dados processados aqui serão referentes a usuários de outros países. A escolha pela região se deu por conta da proximidade com cabos submarinos de internet, que aceleram a velocidade de transmissão. Por falar em exportação, esse data center está localizado em uma ZPE.

  • A “Picaretagem” das ZPEs: ZPE é Zona de Processamento de Exportação, área voltada para a indústria e para exportação, com incentivos fiscais e regulações diferenciadas para atrair empresas; atualmente, existem quatro ZPEs no Brasil. A Medida Provisória 1.307 permite que data centers se instalem nessas zonas com com isenção fiscal massiva, exportando serviços e “nacionalizando” os impactos ambientais (Idec).

>>> LEIA MAIS: PROJETO DE DATA CENTER BILIONÁRIO EM ELDORADO DO SUL (INTERCEPT) <<<

5. Regulação ou Liberdade Geral? O Debate no Congresso

Mas nem tudo está perdido, ainda. Existe uma contraparte que está lutando para que o Brasil não vire uma colônia digital.

  • PL 414/2026: Propõe normas rigorosas, como a proibição de data centers a menos de 1 km de áreas residenciais, escolas ou comunidades tradicionais (Câmara dos Deputados). Dessa forma, pretende-se assegurar que a população esteja protegida dos impactos sócio-ambientais dessas estruturas.

  • Exigência de EIA/RIMA: Diferente da tendência atual de licenciamento simplificado, novas propostas pedem Estudo de Impacto Ambiental obrigatório para Data Centers de Grande Porte (Câmara dos Deputados). Até então, os estudos ou não existem ou são completamente ignorados.

  • Soberania vs. Dependência: Críticos alertam que apenas hospedar dados no Brasil não garante soberania se o controle da infraestrutura continuar nas mãos de empresas estrangeiras sujeitas a leis externas (ARTIGO 19). A própria ByteDance passou por um processo nos EUA que tinha como objetivo a venda do TikTok para uma empresa americana. Em janeiro desse ano, o processo foi concluído com a vendas das operações nos EUA para empresas estadunidenses. A nova empresa criada, um consórcio que envolve até a Oracle, gerencia a moderação de conteúdo e dados dos usuários americanos, enquanto o TikTok global continua responsável por marketing e comércio eletrônico.

>>> LEIA MAIS: A POLÍTICA DE DATA CENTERS NO BRASIL (ARTIGO 19) <<<

5. O Peso da Nuvem

A realidade distorcida também é ambiental. O digital não é “limpo”; ele tem cheiro de metal, consome rios e depende de mineradoras no Sul Global (Idec). Soberania digital não se faz apenas atraindo investimento, mas garantindo que a tecnologia sirva à justiça climática e social, e não apenas ao lucro de poucos.

Para refletir:

  • Vale a pena subsidiar empresas bilionárias enquanto 33 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável? (Idec).

  • Se faltar luz ou água, quem vai ser cortado primeiro: a casa do cidadão ou o servidor da IA? (Idec).

  • A IA é realmente “inteligente” se ela depende de uma cadeia extrativista degradante para funcionar? (Idec).

  • Estamos trocando nossa água e energia barata por uma “soberania” que, no fim, pertence às Big Techs? (ARTIGO 19).]


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Cintia Pudim

Blogueira | Podcaster | Cafeinólatra | Social Media